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Profissionais do Siass aprofundam discussão sobre saúde mental

Bem-estar

publicado: 04/09/2020 19h24 última modificação: 09/09/2020 14h32
Foto: Pressfoto by Freepik

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Cuidados para manter a saúde mental podem fazer a diferença em nosso cotidiano, principalmente durante a pandemia do novo coronavírus. O assunto já chamava a atenção em índices de todos os países. Dados de 2017 da Organização Mundial da Saúde apontam que, entre as 10 principais causas de afastamento de trabalho no mundo, cinco delas são em decorrência de transtornos mentais, sendo a depressão a primeira na classificação.

Ainda, no âmbito da UTFPR, a discussão da temática também se faz necessária. Em 2019, 39% das perícias médicas estão atreladas a questões psicológicas ou de saúde mental dos servidores, de acordo com o Sistema Integrado de Administração de Pessoal (Siape) do Governo Federal.

Para trazer mais informações e entender melhor sobre a saúde mental, falamos com integrantes da equipe do Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (Siass): Gisele Voss, psicóloga do Câmpus Pato Branco, e Eduardo Paulucio, médico psiquiatra da Reitoria.

O que é saúde mental?

Para os profissionais do Siass, a saúde mental é um estado de bem-estar que nos permite lidar com tensões normais da vida, possibilitando a realização trabalhos e atividades e a colaboração com a comunidade. Voss ainda acrescenta que estão inclusas nesta condição as habilidades de pensar, sentir e interagir uns com os outros, de modo saudável, em vivências coletivas e individuais. “É a capacidade de uma pessoa ser produtiva e contribuir para o meio no qual vive, apreciando a vida e gerindo as próprias emoções, negativas e positivas. É o que permite a adaptação a diferentes eventos e ciclos da vida”, afirma Paulucio.    

Desmistificação sobre o tema

A saúde mental é desenvolvida a partir de fatores individuais, biológicos, ambientais e socioeconômicos. Mas parece haver resistência para promover o debate ou admitir a existência de uma condição mental. “Há falta de compreensão para sofrimentos desse tipo. Por não ser algo expresso fisicamente, torna-se algo de mais difícil diagnóstico e de visualização pelas pessoas”, explica Voss.

Paulucio detalha que existe um preconceito derivado do tempo em que não existiam tratamentos eficazes na década de 60. “Naquela época, sofrer de algum transtorno mental significava ter uma condição crônica, muitas vezes incapacitante e quase sem chances de melhora. Assim, a pessoa era privada do contato com o mundo externo. E a segregação social era quase uma certeza”, narra.

O médico explica que, por isso, até hoje as pessoas temem ser rotuladas e desvalorizadas, confundindo um problema de saúde com um simples destempero ou um sinal de fraqueza, frescura ou falta de trabalho. “Na sociedade atual, há uma negação do que não é visível e do que não é material, gerando desconfiança e desrespeito à condição mental e emocional do outro”, complementa Voss.

Diante deste cenário, os profissionais do Siass ressaltam a importância de se conscientizar a população sobre o assunto. Paulucio explica que o acesso à informação contribui para desmistificar os transtornos mentais, que passam a ser compreendidos como as outras condições de saúde, passíveis de tratamento. “Temos que abordar esse tema para que tenhamos cada vez mais atitudes de acolhimento às pessoas”, conclui a psicóloga.

Saúde mental diante do novo coronavírus

Paulucio descreve que vivemos em um cenário único, que não pode ser comparado a qualquer outra pandemia anterior. “Nestes tempos, planejamentos são frustrados; irritabilidade e impaciência se avolumam; incertezas sobre o futuro são presentes; e sensação de cansaço e alterações no sono estão frequentes”, afirma.

Voss explica que a saúde mental é afetada diretamente pela incerteza, pelo medo do contágio, pelo luto das perdas e pela necessidade de isolamento social e distanciamento físico. “Sintomas de ansiedade, tristeza, insegurança, tensão e irritação são comuns neste período. Sensações ligadas ao estado de alerta, ao estresse e à preocupação estão entre as manifestações físicas e emocionais esperadas”, detalha.

Os profissionais do Siass indicam a realização de atividades que auxiliem a passar por este momento de modo mais ameno. “Além dos cuidados com a alimentação e o sono, é importante investir em ações que reduzam o nível de estresse agudo, verificando o que funciona para você e aquilo que é mais adequado a sua realidade”, orienta a psicóloga.

Para ela, o apoio terapêutico profissional e o fortalecimento da rede socioafetiva são pontos essenciais. Paulucio recomenda o uso de aplicativos de vídeo chamada para manter contato com amigos e familiares, como um meio para diminuir a saudade.

   Veja se outras sugestões, analisando o que pode funcionar para você:
- Estabelecer uma rotina mais organizada;
- Fazer uma atividade física em casa;
- Buscar ações de lazer, como assistir a filmes e seriados ou ler livros;
- Aprender novas receitas culinárias;
- Usar ferramentas e estratégias de autocuidado, já utilizados anteriormente em momentos de instabilidade emocional e que trouxeram sentimentos positivos;
- Estudar técnicas de meditação;
- Escolher canais de comunicação confiáveis, evitando o excesso de informação;
- Evitar ler notícias conflitantes por um tempo, caso o número de mortes e de infectados lhe traga insegurança.

Quando e como buscar ajuda profissional?

Para Voss, parte dos sentimentos associados à pandemia estão ligados ao sofrimento psicológico, porém nem todos são sinais de psicopatologia. “Quando as sensações negativas ultrapassam um limite e as estratégias de autocuidado não são suficientes para se estabilizar emocionalmente, é preciso buscar apoio de profissionais da saúde mental e atenção psicossocial para orientação adequada”, instrui a psicóloga.

Paulucio acrescenta que, nesta situação de pandemia, é normal que a pessoa se sinta triste e desmotivada por alguns dias, sem que algo ruim tenha acontecido. Para ele, estes estados duram dois ou três dias e melhoram espontaneamente. Mas, o médico alerta “se passou uma semana, e o sentimento continua; e, depois de 10 ou 15 dias, ainda está acordando com os dois pés esquerdos, você provavelmente precisa de ajuda”, diz.

Ainda, o psiquiatra conta que os planos de saúde são obrigados por lei a fornecerem acompanhamento psicológico. “Se você não tem um plano contratado e não dispõe de recursos próprios, pode procurar as faculdades de psicologia, onde será atendido por um aluno do último ano, que é supervisionado por um professor. Estes atendimentos em geral têm um valor simbólico de custo”, fala. 

Quando e como ajudar os outros?

Para prestar qualquer auxílio, Voss ressalta que primeiro é preciso buscar estratégias de autocuidado para estar em condições de oferecer suporte a outros. “Precisamos nos cuidar e nos perceber, reconhecendo e acolhendo nossos próprios receios e sentimentos, procurando apoio em pessoas próximas ou profissionais de sua confiança”, recomenda.

Para ela, é necessário ter condições emocionais diante de algumas situações de vulnerabilidade de outras pessoas. “Como profissionais da educação, os servidores das universidades acabam sendo buscados como possíveis referências de apoio emocional neste momento. Caso sinta que não sabe como apoiar colegas ou alunos em algumas situações, encaminhe-os para os profissionais da área de psicologia e assistência social da UTFPR”, orienta.

Após o autocuidado, a escuta empática e a comunicação não violenta são ferramentas de grande valor: “Buscar ouvir com respeito e sem julgamento é o primeiro passo para ajudar na manutenção da saúde mental das pessoas com quem convivemos”, diz Voss.

Na mesma linha, Paulucio relata que é preciso ter uma postura de acolhimento e compreensão. “Frases motivacionais, como ‘vamos lá’, ‘só depende de você’, ´tem que se ajudar´, denotam desconhecimento e pioram a já combalida autoestima”, explica. O psiquiatra destaca que é preciso entender que a pessoa não sofre por preguiça ou por uma decisão dela. “Trata-se de um estado temporário de incapacidade e inaptidão, que melhora com acompanhamento adequado”, explica.

No âmbito do teletrabalho

Segundo os profissionais, a instituição deve buscar promover um ambiente propício à saúde mental, que respeite e proteja os direitos básicos do servidor, a partir de políticas e ações educativas comunitárias.

Nos setores e departamentos, os servidores podem contribuir para criar relações de trabalho saudáveis. “É preciso buscar o equilíbrio das demandas; dividir as atividades de forma razoável entre os servidores para evitar sobrecarga; e trabalhar com uma comunicação clara e leve, prezando pelo respeito e bom senso”, orienta Voss.

Ainda, a psicóloga recomenda o apoio mútuo e o acolhimento entre membros da equipe, sem julgar o outro, para criar um ambiente organizacional saudável. “A escuta empática, uma das ferramentas da comunicação não violenta, é uma opção interessante para a manutenção da saúde mental coletiva”, diz. Outro caminho indicado por ela é se manter em contato com os colegas para compartilhar como estão se sentindo.

    Dicas para as relações saudáveis de trabalho
- Estabelecer prazos e quantidade de atividades, compatíveis com o cargo e a carga horária;
- Observar os horários estabelecidos, mantendo o tempo de descanso e os intervalos;
- Evitar o excesso de mensagens em grupo e o uso de meios não oficiais para a solicitação de demandas;
- Ter atenção à linguagem e clareza na comunicação, na escuta e no acolhimento em situações de necessidade;
- Respeitar a diversidade cultural, racial, religiosa ou de gênero;
- Encaminhar o servidor a serviços de apoio na instituição;
- Evitar o excesso de atividades com tela;
- Cuidar com o excesso de reuniões.